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XIV Prémio Norte-Sul do Conselho da Europa

March 16, 2009

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Centro Norte-Sul do
Conselho da Europa

Comunicado de Imprensa

XIV Prémio Norte-Sul do Conselho da Europa

Conselho da Europa distingue Rainha da Jordânia e Jorge Sampaio

O décimo-quarto Prémio do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa é entregue à Rainha da Jordânia, Rania-Al Abdullah, e a Jorge Sampaio, na cerimónia que se realiza em sessão solene na Assembleia da República, no dia 16 de Março, às 16h30.

A cerimónia, organizada pelo Centro Norte-Sul do Conselho da Europa em cooperação com a Assembleia da República, vai contar com a presença de Sua Excelência o Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, o Presidente da Assembleia da República Jaime Gama e a Secretária-Geral Adjunta do Conselho da Europa, Maud de Boer-Buquicchio.

RANIA AL ABDULLAH
A rainha Rania da Jordânia tem dedicado uma parte importante da sua vida às causas das crianças e das mulheres de meios mais desfavorecidos na Jordânia, através de instituições, das quais foi fundadora, como a Jordan River Foundation e a Dar al-Aman. As suas actividades abrangem temas como educação, saúde, direitos, segurança e ambiente, entre outros. A melhoria da qualidade de vida da unidade familiar, a protecção das crianças contra a violência infantil, a valorização da educação, o desenvolvimento de projectos geradores de receitas e as boas práticas no domínio da micro-finança, têm sido temas centrais nas actividades promovidas pela rainha. O diálogo intercultural e a promoção de uma maior compreensão e tolerância em todo o mundo têm estado sempre presentes nas suas acções sociais.

JORGE SAMPAIO
Jorge Sampaio, foi Presidente da República Portuguesa entre 1996 e 2006, tendo os seus mandatos sido marcados pela valorização de temas essenciais para o desenvolvimento da sociedade portuguesa: educação, ensino superior e ciência, formação profissional, inovação empresarial, sociedade da informação, saúde e toxicodependência, desenvolvimento local, pobreza, exclusão social e cidadania, entre outros. A promoção da língua portuguesa e o estreitamento das relações entre os PALOP e o Brasil foram linhas de força da sua actuação enquanto Presidente da República. Acompanhou o processo de transição de Macau e teve reconhecido contributo na independência de Timor-Leste. Actualmente, integra o Conselho de Estado e exerce altos cargos internacionais, nomeadamente o de enviado especial para a luta contra a Tuberculose e de Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações.

PRÉMIO NORTE-SUL DO CONSELHO DA EUROPA
O Prémio Norte-Sul do Conselho da Europa é entregues todos os anos, desde 1995, a duas personalidades, uma do Norte e outra do Sul, que se tenham destacado pelo seu trabalho na protecção dos Direitos Humanos e no fortalecimento das relações Norte-Sul. Entre 1995 e 2008, os Prémios foram entregues a 26 individualidades entre as quais se destacam algumas bem conhecidas do público português: Peter Gabriel, Danielle Mitterrand, Graça Machel, Emma Bonino, Mário Soares, Xanana Gusmão, António de Almeida Santos, Bob Geldof, Simone Veil e Kofi Annan. O prémio deste ano é da autoria do artista Lívio de Morais.

Para mais informações consultar: www.nscentre.org

Para mais informações contactar o Gabinete de Imprensa do Centro Norte-Sul:

Vera Carrondo – tp.arierepsivrejnull@odnorrac.arev www.jervispereira.pt
Rua Joshua Benoliel, nº 6, 5º C 1250-133 Lisboa Tel.: 21 380 85 12 Fax: 21 380 84 99

Segundo Forum da Aliança das Civilizações – Istambul, 6-7 de Abril de 2009

March 13, 2009

Gabinete de Jorge Sampaio
Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações

Casa do Regalo
Tapada das Necessidades
1350-213 Lisboa

NOTA À IMPRENSA

Segundo Forum da Aliança das Civilizações,
Istambul, 6-7 de Abril de 2009

O Segundo Forum da Aliança das Civilizações terá lugar em Istambul, a 6 e 7 de Abril de 2009, e será aberto à comunicação social.
Contará com a participação do Primeiro-Ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, o Presidente do Governo de Espanha, José Luis Zapatero, o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki moon, bem como de representantes do Grupo de Amigos da Aliança das Civilizações – uma comunidade composta por cerca de uma centena de países e organizações internacionais e regionais -, de organizações da sociedade civil, empresas e fundações.
Nas palavras do Secretário-Geral das Nações Unidas, “o próximo Forum da Aliança visa promover a compreensão mútua e um melhor conhecimento inter-cultural e inter-religioso, contribuindo assim para o reforço da cooperação e da harmonia na comunidade internacional”.

O Secretário-Geral sublinhou também que a participação do Presidente Barack Obama, emprestará a este Forum um significado muito especial, tratando-se da primeira vez que os Estados Unidos estarão presentes na Aliança das Civilizações.
Anexa-se comunicado à imprensa sobre o Forum. Sobre o programa e processo de acreditações, por favor consultar o site http://www.aocistanbul.org/. Para mais informações, por favor contacte Helena Barroco tp.obactennull@ocorrabh; tel 21 3931440 ou 91-7776309)

Lisboa, 13 de Março de 2009

Nota à imprensa 29 Jan 2009

January 29, 2009

Gabinete do Dr. Jorge Sampaio
Nota à imprensa
29 de Janeiro de 2009

Atendendo ao elevado número de questões que têm chegado a este Gabinete relacionados com a promulgação dos Decreto-Lei 140/2002 e 141/2002, a 2 de Maio de 2002, pelo Dr. Jorge Sampaio, então Presidente da República, esclarecem-se a seguir os pontos que mais dúvidas têm suscitado:

1. Governos de gestão e governos em fase de transição
Há uma questão normalmente confundida e que deve ser esclarecida. Uma coisa é um governo de gestão, situação em que o Governo fica após a sua demissão, com competências de alguma forma diminuídas. Outra coisa é um Governo no termo do seu mandato que, já após a realização de eleições, pode estar na plenitude das funções, mas que só as exerce até à nomeação e posse do novo Governo.

2. Questão dos limites de um governo de gestão
A questão das competências dos governos de gestão é matéria de grande controvérsia dado que a interpretação da norma constitucional não é unívoca nem de resultados seguros.
No período em causa, em Janeiro de 2002, fui chamado a promulgar um diploma sobre designação das direcções técnicas dos hospitais que me merecia as maiores dúvidas no que respeita à observância dos limites constitucionais que incidem especificamente sobre os governos de gestão. Tratando-se de matéria de constitucionalidade, pedi naturalmente ao Tribunal Constitucional a respectiva fiscalização, não apenas para me permitir uma decisão fundamentada sobre aquele diploma, mas também, como disse expressamente no requerimento que fiz ao Tribunal Constitucional, para firmar jurisprudência aplicável a todas as situações análogas, ou seja, competências dos governos de gestão. O Tribunal Constitucional pronunciou-se pela não inconstitucionalidade em Março de 2002 e estabelecendo um critério que, em termos práticos, deixa a decisão sobre a matéria quase integralmente nas mãos do Governo. Independentemente da opinião pessoal sobre a posição do Tribunal Constitucional, não deixei, como devia, de a seguir.

3. Questão dos limites da promulgação de diplomas de um Governo que vai ser substituído a curto prazo por um novo Governo.
Relativamente às competências legislativas dos governos em fase de transição (estivessem ou não em gestão, porque um Governo pode estar prestes a ser substituído e manter-se constitucionalmente na plenitude das funções), o Dr. Jorge Sampaio adoptou um padrão uniforme de actuação durante os seus dois mandatos: sempre que um diploma aprovado ainda pelo governo em funções pudesse de algum modo condicionar ou criar obstáculos ao novo Governo, ele só era promulgado se os responsáveis do novo Governo não manifestassem a propósito quaisquer reservas ou objecções.

4. Caso dos Decretos-Lei n.º 140/2002 e n.º 141/2002
Como aconteceu em todas as situações análogas, os decretos-lei 140/2002 e 141/2002 só foram promulgados, já em 2 Maio de 2002, após os responsáveis do novo Governo prestes a entrar em funções, ao terem sido chamados a pronunciar-se, não terem manifestado quaisquer reservas ou objecções ao diploma.
É bom esclarecer ainda que a promulgação destes diplomas nada tem a ver com processos de licenciamento. Estes são actos administrativos, da competência exclusiva do Governo e relativamente aos quais o Presidente da República não é chamado a promulgar ou assinar.

Gabinete do Dr. Jorge Sampaio
Lisboa, 29 de Janeiro de 2009

Nós e os Outros – os desafios do diálogo intercultural

December 17, 2008

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Jorge Sampaio
ALTO REPRESENTANTE DAS NAÇÕES UNIDAS
PARA A ALIANÇA DAS CIVILIZAÇÕES

“Nós e os Outros – os desafios do diálogo intercultural”

Conferência do
Ciclo de Seminários Qualificantes
Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Lisboa,
Sala de Extracções da
Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).
17 de Dezembro de 208

 

Senhor Provedor, Dr. Rui António Ferreira da Cunha
Senhor Vice-Provedor, Dr. António Santos Luis
Senhores colaboradores
Minhas Senhoras e Senhores

Quero começar por saudar todos os presentes e dizer o quanto iniciativas como esta merecem estímulo, apreço e todo o apoio.

E porquê ? Basicamente por três razões:

Primeiro porque contribuem para a formação contínua dos colaboradores desta instituição, o que a meu ver é fundamental para a requalificação e actualização permanente dos trabalhadores.

Em segundo lugar, porque sendo uma ocasião informal de trocas de pontos de vista, de diálogo e de experiências, assim se fomenta o espírito de unidade e solidariedade colectiva. Ora estes são, a meu ver, valores determinantes da força desta instituição que desempenha um papel tão importante para a coesão da nossa sociedade.

Em terceiro lugar porque a temática escolhida para este seminário é da maior oportunidade e coincide com o encerramento do Ano Europeu do Diálogo Intercultural.

Meus amigos

O calendário das causas mundiais tem esta vertente, digamos, de inspiração astral que contempla a celebração de um conjunto de efemérides que ora revestem a natureza das festas fixas – é o caso do Dia Mundial dos Direitos Humanos (a 10 de Dezembro), do Dia da Mulher (a 8 de Março), do Dia da Tuberculose (a 23 de Março) ou do dia das Migrações (a 18 de Dezembro), só para dar alguns exemplos dos 365 possíveis –, ora apresentam um carácter episódico e excepcional, quando se decide que um determinado ano será dedicado a esta ou aquela causa.

Sabemos que esta propensão comemorativa suscita por vezes algumas reservas e reacções críticas, envolta que está, quase sempre, por uma certa contradição… de facto, como aceitar que a SIDA seja matéria de celebrações uma vez por ano, que à mulher, aos migrantes ou às crianças seja necessário consagrar anualmente 24 horas, como nos resignarmos a que só a 10 de Dezembro nos ocorra alertar para a importância fundamental dos direitos humanos, como nos contentarmos com escassos 12 meses de comemorações e festejos em matéria de diálogo intercultural quando este é porventura um dos grandes desafios deste século?

Mas a verdade é que não devemos também deixar de salientar as vantagens inegáveis destas operações de sensibilização e de chamada de atenção pública para a causa a, b ou c porque afinal é disso que se trata – aliás, nestas efemérides, trata-se mesmo quase sempre de pôr em destaque problemas de significativa expressão social, questões de verdadeira emergência humanitária, todos, afinal, ligados o mais das vezes, a direitos fundamentais que, embora universais, tardam, porém, a materializar-se para todos…

Por isso, entendo que vale a pena chamar estas causas para a ordem do dia, na esperança de que assim passem também para as opiniões públicas, para os media e, destes, para a agenda política dos governos, no plano local, nacional e global.

Como quer que seja, deixem-me, desde já, sublinhar que no caso do diálogo intercultural, na minha qualidade de Alto Representante da Aliança das Civilizações, realizei diligências junto das várias instâncias europeias e dos seus Estados membros no sentido de transformar o Ano Europeu do Diálogo Inter-cultural num programa de longo prazo destinado a incentivar e a acompanhar o desenvolvimento sustentável de políticas e práticas de boa governação da diversidade cultural.

Poderão perguntar-se – Mas, afinal, o que é isso da boa governação da diversidade cultural ? Para quê palavras tão eruditas para dizer aquilo que é tão simples – saber respeitar a diversidade, tolerar a diferença e, mais do que isso, apreciar aquilo que nos distingue dos outros ?

Eu sei que muitos de vós lidam com esta realidade no dia-a- dia profissional. Sei também que conhecem as dificuldades desta convivência. Sei que porventura experimentam no quotidiano o abismo que vai entre a retórica da igualdade e da inclusão e a realidade das desigualdades e da exclusão.

Meus amigos

Concordo convosco se me disserem que, em matéria de protecção da diversidade cultural, o problema não está nas leis nem nos diplomas legais nem nos princípios nem nos direitos formais.

Dispomos aliás de uma boa moldura jurídica composta por instrumentos legais mais do que suficientes, de que destacaria: a Declaração Universal dos Direitos do Homem de que, aliás, festejámos na semana passada o seu sexagésimo aniversário; a Convenção para a Protecção dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais; a Convenção Europeia para o estatuto legal dos Trabalhadores Migrantes ou ainda a Convenção da UNESCO sobre a protecção da diversidade cultural.

Aliás, quero frisar que os estudos que consultei consideram que Portugal criou um quadro jurídico para a integração dos migrantes composto por políticas favoráveis e pelas melhores práticas (por exemplo, em matéria de acesso ao mercado de trabalho, reagrupamento familiar e anti-discriminação ou ainda no plano das liberdade políticas e de participação política).

Devemo-nos congratular porque estar sempre só a apontar as carências e as deficiências da actuação dos poderes públicos – exercício de auto-denegrição em que tanto gostamos de nos comprazer – não contribui necessariamente para a resolução dos problemas.

Mas significa isso que podemos cruzar os braços e descansar ?

Também não e sabemos muito bem que são muitas as razões que militam a favor de uma necessária mudança de atitudes até porque é disto mesmo que se trata, de mudança de mentalidades, de atitudes e de comportamentos.

Primeiro porque, como já disse, entre a letra e a prática vai uma distância. Depois porque a heterogeneidade de comportamentos e situações é gritante e sabemos que a violência e a intolerância tendem a ser proporcionais ao isolamento cultural e ao grau de educação; em terceiro lugar, porque uma sociedade para ser coesa tem de reforçar os laços de solidariedade intra e inter comunitários, tem de saber apreciar e valorizar a diversidade de que é feita para a partir daí traçar uma visão colectiva de um futuro partilhado. Por último, porque os ambientes de crise tendem sempre a potenciar os factores de racismo, chauvinismo e agressividade.

Por isso quero deixar aqui um apelo. É que cada um ao seu nível promova uma nova atitude que, a meu ver, é indispensável se quisermos construir um futuro sustentável para Portugal.

Uma nova atitude em relação aos nossos concidadãos, sejam eles de que origem forem, à nossa sociedade, à diversidade que ela reveste – nas escolas, nos locais de trabalho, no bairro, no prédio.

Uma nova atitude na partilha do espaço público, em que convivem sempre mais e diversos grupos étnicos, culturais e religiosos.

Uma nova atitude em relação à nossa identidade singular e colectiva, aos valores que a talham, às componentes que nela se entrelaçam de forma dinâmica e aberta.

Uma nova atitude também em relação ao que a democracia e a igualdade de direitos e liberdades significam em termos de responsabilidades e de respeito mútuo quando aplicadas a este contexto de crescente diversidade cultural.

Uma nova atitude, por fim, em relação à forma de estar na nossa aldeia global, em que nada está totalmente isolado e em que o destino da humanidade se joga.

Meus amigos

Como aqui já disse e repito, resumido ao essencial, o que está em jogo, é uma questão de Educação.

Educação para os direitos do homem, educação para a cidadania e para o respeito pelos outros. Educação para a diversidade e o diálogo. Educação sobre media literacy. Educação sobre religiões e crenças e para o diálogo inter-religioso.

Temos de aprender e ensinar competências inter-culturais aos nossos cidadãos. Temos de criar estratégias urbanas e políticas para o diálogo intercultural. Precisamos de políticas para os jovens baseadas na igualdade de direitos e de oportunidades. Precisamos de mobilizar a sociedade civil em geral, os jovens, os líderes religiosos e os media. Precisamos também de aprofundar a agenda do diálogo intercultural no contexto das relações internacionais e conferir-lhe prioridade máxima.

Neste particular, permitam-me que destaque o papel que esta instituição pode desempenhar pela influência que tem junto das faixas mais críticas da sociedade portuguesa. Pela sua capacidade de detectar situações de risco e de lançar alertas precoces. Pela sua capacidade pedagógica, pela sua experiência de boas práticas.

Por isso, gostaria de os incentivar a colaborar com o Coordenador Nacional para a Aliança das Civilizações, o Professor Bacelar Vasconcelos, que é o responsável pela feitura, aplicação e monitorização da Estratégia Nacional do Diálogo Intercultural, uma proposta e um desafio que a Aliança das Civilizações lançou a todos os seus membros, de que Portugal faz também parte.

Hoje em dia, com as novas tecnologias da informação e da comunicação, é mais fácil unir esforços, partilhar experiências e saberes e, em conjunto propor soluções comuns para os problemas que são também eles comuns.

Para termos políticas eficazes de diálogo intercultural precisamos do contributo activo da sociedade civil e da sua colaboração empenhada.

É por isso que termino, formulando votos de que o próximo ano, não sendo já o de celebrações oficiais do diálogo inter-cultural, seja, porém, um tempo de intensa cooperação, de maior entendimento e solidariedade entre todos os cidadãos.

Muito obrigado

Conferência no I.D.N. «Seis Reflexões sobre os Desafios de uma Estratégia Nacional»

December 17, 2008

Jorge Sampaio

Presidente da República (1996-2006)

SEIS REFLEXÕES SOBRE OS DESAFIOS DE UMA ESTRATÉGIA NACIONAL

Lisboa,
Instituto de Defesa Nacional
17 de Dezembro de 2008

 

 

Senhor Ministro da Defesa Nacional
Senhor Director do Instituto de Defesa Nacional
Excelências
Minhas Senhoras e Senhores

Tenho o maior gosto em regressar ao Instituto de Defesa Nacional, na minha dupla qualidade de antigo Presidente e de vizinho, e quero agradecer o convite, que muito me honra e que, por razões várias, não devia ter aceite.
Desde logo, porque a estratégia nacional é um dos temas em relação ao qual os antigos Presidentes da República detiveram especiais responsabilidades, o que torna o presente exercício algo delicado. Por outro lado, porque desde há muito tempo me habituei a pensar no Instituto de Defesa Nacional como o lugar onde se reflecte, de uma forma séria e rigorosa, sobre a estratégia nacional e, nesse sentido, preferiria sentar-me do lado dos auditores, sem correr o risco de estar a pregar a quem sabe mais do que eu sobre a matéria. Mas há, ainda, uma outra razão: a constância da estratégia nacional, ou a força das suas linhas de continuidade, é tão forte que, das duas uma: ou não me resta grande coisa para dizer, a não ser repetir as mesmas grandes orientações, confrontando-as porventura com os problemas do momento; ou então, cometo a imprudência de vos falar da ambição que tenho para Portugal, projectando-a num horizonte temporal de 10 a 15 anos.
Compreenderão, por certo, que opte por este último, mas bem mais incerto, caminho, com todos os riscos que tal aventura comporta. Creio, porém, que vale a pena tentar, porque, num tempo de instabilidade e pessimismo generalizados como é o nosso, em que todos os dias somos surpreendidos por notícias quase sempre más e de impacto negativo global, importa conciliar os vários tempos de concepção e de actuação, o curto e o médio prazo que o imprevisto e a emergência exigem, com o longo prazo, no duplo plano retrospectivo e prospectivo, que qualquer visão estratégica pressupõe.
Entendo de facto – e quero sublinhá-lo – que para definir uma estratégia nacional realista e consequente, é preciso que tenhamos consciência da situação de que se parte, avaliando os pontos fortes e os pontos fracos. Só com esta consciência se pode potenciar as vantagens dos primeiros e atenuar os inconvenientes dos segundos. Só assim é possível valorizar o que é bom e transformar o que está mal. Mas, para tanto, é também necessário, ter em mente uma visão do futuro que queremos para Portugal e dos desafios globais com que nos confrontamos, antecipando tendências e evoluções, mesmo se a incerteza e a instabilidade constituem determinantes essenciais do mundo em que vivemos.
Nas seis reflexões que se seguem, espero não ser demasiado longo: a minha estratégia não é derrotar pela usura, mas apenas a de contribuir com algumas questões para o debate que, em boa hora, foi aberto pelo IDN. Debate que porventura se irá focalizar mais sobre questões de defesa, mas que eu hoje quis deliberadamente situar no âmbito de uma concepção mais vasta de “segurança humana”, que antes de mais coloca as pessoas – e neste caso, os portugueses – no centro de qualquer estratégia, cujo propósito só pode ser o de a todos procurar garantir mais e melhor paz, desenvolvimento e direitos humanos.

*

Uma reflexão preliminar: os três vectores da estratégia nacional

Na minha opinião, a estratégia nacional tem três vectores fundamentais.
O primeiro vector é a própria comunidade nacional, princípio e fim de qualquer estratégia nacional. A finalidade da estratégia nacional é garantir as melhores condições que podem assegurar a independência de Portugal e a protecção dos portugueses, dos seus valores e padrões de desenvolvimento, a continuidade do Estado e da comunidade portuguesa, bem como a nossa afirmação no plano internacional.
Sabemo-lo bem, mas não faz mal lembrar, que Portugal é uma nação muito antiga, com uma história ímpar, uma cultura universalista e prestigiada e uma forte identidade, sem conflitos étnicos, religiosos ou regionais, com um nível elevado de desenvolvimento, sem problemas de fronteiras nem diferendos internacionais por resolver. A meu ver, estes são poderosos trunfos no mundo globalizado, que uma estratégia nacional adequada tem de saber proteger e potenciar.
O segundo vector é a legitimidade das instituições representativas da vontade nacional. Os regimes autoritários minam a confiança das nações, que só se podem unir como comunidades livres quando existem os quadros constitucionais indispensáveis para assegurar os direitos, liberdades e garantias de todos os cidadãos, iguais perante a lei. A independência e autonomia nacionais não podem ser separadas da qualidade das nossas instituições democráticas, sem a qual a capacidade de prestação e de resposta do sistema político resultará sempre prejudicada.
O 25 de Abril de 1974 e as subsequentes escolhas democráticas dos Portugueses restauraram a legitimidade das instituições políticas. Hoje somos uma democracia estabilizada, com instituições políticas que funcionam regularmente e com uma Constituição que deixou de ser um factor de controvérsia e divisão, ou um álibi para justificar que não se faça o que se entende indispensável fazer.
O terceiro vector é a inserção do Estado no sistema internacional como entidade autónoma e separada.
É bom não esquecer que foi a democracia portuguesa que permitiu a Portugal reconquistar uma posição internacional, aderir à Comunidade Europeia, consolidar o seu lugar na aliança das democracias ocidentais e, assim, recuperar as condições de uma política externa efectiva.
Portugal goza hoje de um prestígio muito superior à sua dimensão geográfica, dispondo de um lugar internacional claro e definido, o que potencia a sua capacidade de intervenção como membro activo das Nações Unidas, da União Europeia, da Aliança Atlântica, da CPLP e de outras instâncias multilaterais.
Nenhum responsável nacional pode ignorar que a segurança de Portugal e dos Portugueses é inseparável da sua inserção na Comunidade Internacional. A tentação de nos imaginar, outra vez, “orgulhosamente sós”, só não é ridícula por ser demasiado perigosa e recorrente nos movimentos populistas e nacionalistas que se opõem aos grandes consensos da política externa da democracia portuguesa com argumentos de facilidade sobre a defesa da soberania nacional.

Segunda reflexão: a integração europeia, a aposta estratégica da democracia portuguesa

A minha geração política formou-se no momento em que a natureza do regime autoritário nos impôs uma guerra impossível nas colónias africanas e fechou a Portugal a alternativa da integração europeia.
O 25 de Abril é o resultado do reconhecimento dos riscos que o prolongamento excessivo desse impasse fazia correr à estratégia nacional. A decomposição do regime autoritário impedia-o de realizar uma estratégia de transição, as Forças Armadas forçaram uma ruptura.
A escolha democrática e europeia dos Portugueses nas eleições do pós 74 determinou o sentido político e estratégico dessa ruptura. A valorização da dimensão europeia da estratégia nacional fez parte das grandes opções da democracia portuguesa e foi também a resposta estratégica de Portugal à alteração do seu posicionamento internacional na sequência da descolonização.
Permitam-me que vinque bem que foi a opção europeia fundamental da democracia portuguesa que provocou uma verdadeira revolução copérnica no nosso posicionamento internacional. Hoje, embora mantenhamos naturalmente laços privilegiados com os países de Língua Portuguesa, podemo-nos orgulhar de ter – perdoem-me a expressão – descolonizado as nossas relações mútuas. Ora, só a nossa integração na Comunidade Europeia tornou possível esta evolução, tornando-nos um parceiro respeitado da lusofonia na Europa e um interlocutor europeu insuspeito junto dos países de língua portuguesa, mas também em África em geral. Gostaria igualmente de frisar que a nossa integração europeia trouxe ainda uma alteração qualitativa das nossas relações bilaterais em geral e, muito particularmente, com Espanha, país que, por razões históricas e geo-estratégicas bem conhecidas, pesa como nenhum outro nos destinos de Portugal.
Tenho obrigação de saber que não é fácil, para quem tem como primeiro dever a defesa dos interesses nacionais, reconhecer que esses interesses só se podem, hoje, defender eficazmente num quadro multilateral e de acção colectiva. Por isso, o nosso dever é saber conciliar a procura da maior autonomia possível para o Estado com a ausência de ilusões acerca dos limites que nos são impostos pela própria natureza do sistema internacional. Mais do que isso até: o nosso dever é saber potenciar os interesses nacionais a partir e no quadro do sistema internacional.
Foi esse realismo político que conduziu a política do Estado no processo de integração europeia. A integração europeia tornou possível a consolidação das estratégias de modernização da economia e da sociedade portuguesas, numa linha geral de abertura e de convergência no quadro da Comunidade Europeia.
As pessoas da minha geração têm a obrigação de testemunhar as mudanças extraordinárias dos últimos trinta anos, que transformaram um país arcaico e rural numa sociedade urbana e moderna. Por certo, os atrasos acumulados persistem ainda, mas foram feitos avanços significativos na resolução dos problemas que se arrastavam e pareciam sem solução. Num processo que não foi isento de dificuldades e polémicas, pode dizer-se que estão hoje identificados os nossos principais problemas estruturais e está feito o diagnóstico das nossas principais carências e bloqueios.
Assim concluo, afirmando com convicção que, pessoalmente, não tenho quaisquer dúvidas de que para Portugal a aposta certa foi a Europa e que, no processo do contínuo aprofundamento da construção europeia, temos sabido encontrar um lugar e um papel próprio, reforçando a identidade e independência nacional e consolidando a nossa presença no mundo.
Graças à integração europeia, Portugal tem beneficiado das melhores condições possíveis para se modernizar e desenvolver, bem como para fazer face às mudanças profundas nos equilíbrios internacionais depois da unificação da Alemanha e da dissolução da União Soviética.
Por isso, desde 1991, a nossa politica europeia orientou-se no sentido de estar na primeira linha da construção da nova Europa, em todas as dimensões. Portugal pertence ao Espaço Schengen, desde o início, e decidiu participar na criação da moeda única, apesar da dificuldade em cumprir os critérios de acesso estipulados dentro do calendário previsto pelo tratado da União Europeia. Por último, em 1995, Portugal quis estar presente na Força de Intervenção na Bósnia Herzegovina (IFOR), com um destacamento militar muito significativo. Desde esse momento, as Forças Armadas portuguesas participaram em todas as missões militares da Organização do Tratado do Atlântico Norte e da União Europeia nos Balcãs, em África, no Médio Oriente e na Ásia Central, bem como nas sucessivas missões das Nações Unidas em Timor-Leste. Essa decisão politica e as notáveis qualidades profissionais das nossas Forças Armadas asseguraram o reconhecimento internacional da nossa vontade e da nossa capacidade para assumir responsabilidades relevantes nas novas missões militares em teatros de crise.
Permitam-me que termine este conspecto com três conjecturas:
– A primeira é que, se não tivéssemos aderido à Comunidade e se a Europa não se tivesse constituído como um espaço unificado de integração regional e actor regulador da globalização, a autonomia de decisão política e a afirmação externa de Portugal, designadamente como parceiro incontornável da CPLP, seriam dramaticamente inferiores às de hoje.
– A segunda é que, com a internacionalização crescente da economia, as características socio-económicas e com o nível de desenvolvimento que Portugal apresentava aquando aderiu à CEE, é duvidoso que tivéssemos conseguido encetar, com êxito, o ciclo de modernização do país e reforçar a coesão territorial, económica e social do país;
– A terceira é que, com a multiplicação de ameaças difusas e o aumento dos fluxos de criminalidade internacional, é duvidoso que Portugal, com a situação geográfica particularmente exposta que detém, conseguisse assegurar por si só a segurança e a defesa do seu território e gentes.

Terceira reflexão: o pós 11 de Setembro

As condições políticas e estratégicas do pós guerra fria opuseram às ilusões da vitória das democracias um quadro de transição onde se acumulavam os factores de instabilidade e de incerteza, incluindo o regresso da guerra à Europa, a ressurgência dos fundamentalismos e a multiplicação de Estados falhados em todos os continentes.
Os atentados terroristas contra os Estados Unidos, a 11 de Setembro de 2001, precipitaram o quadro de crise de uma forma dramática, revelando, ao mesmo tempo, toda a sua complexidade.
No meu entender, o 11 de Setembro, bem como a tragédia de todos os ataques terroristas que se têm repetido ao longo dos tempos, nos quatro cantos do mundo constituem verdadeiros factos traumáticos que vieram abalar muitas das nossas certezas, revelando formas e actores de violência até então desconhecidos e levantando a questão fundamental de princípios e definições que julgávamos adquiridos. Basta pensar no Afeganistão e na decisão unilateral norte-americana de invadir e ocupar o Iraque ou, ainda, na “guerra global contra o terrorismo” para medirmos a extensão da crise que se abriu ao nível dos fundamentos da ordem legal internacional, provocando um verdadeiro cismo. Cismo no plano europeu e transatlântico, mas cismo também entre o chamado “ocidente” e o “mundo islâmico”, que alguns se apressaram a ver como a manifestação de uma nova e inevitável guerra de religiões e culturas.
Nos últimos sete anos, entre os ataques contra Nova York e Washington e os atentados contra Bombaim, a dinâmica da crise internacional tem-se manifestado, constantemente, em múltiplos domínios. As redes terroristas islamistas, como a Al Qaida e os seus aliados, multiplicaram os atentados – em Bali, em Madrid, em Nova Delhi, em Londres – e mobilizaram todos os seus recursos para provocar um “choque das civilizações”.
A seriedade dos riscos de proliferação das armas nucleares obrigou as principais potências a unir esforços contra o regime autoritário na Coreia do Norte e sabemos como, com o Irão, o diálogo está bloqueado.
Inúmeros países da vizinhança europeia continuam paralisados, entre regimes violentos, e tantas vezes minados pela corrupção, e a ameaça de radicalização dos fundamentalismos, que impedem a consolidação dos Estados nacionais. O conflito Israelo-Palestiniano agudizou-se e passou agora a revestir novas componentes e dimensões, tributárias dos realinhamentos regionais e do equilíbrio de forças entre facções várias.
Os conflitos periféricos, nomeadamente os conflitos concentrados no arco crítico que une o Paquistão ao Golfo Pérsico e ao Cáucaso, tendem a agravar-se e a envolver as principais potências internacionais numa lógica de competição estratégica cada vez mais perigosa.
A consolidação de alguns regimes autoritários e a persistência de impasses e de velhos hábitos imperiais, as incertezas que pesam sobre o sentido dominante na transição pós-comunista na Rússia, bem como as dificuldades de uma visão estratégica do relacionamento euro-russo constituem factores de instabilidade de imprevisível evolução.
Ademais a crescente procura de certos recursos naturais básicos – como a água, alimentos, petróleo ou gás – confrontada com a sua escassez e desigual repartição é susceptível de originar novos conflitos e guerras.
Por último, atravessamos, como é sabido, uma grave crise financeira e económica, cujas consequências ainda não nos são totalmente claras, mas que se poderá assemelhar à Grande Depressão de 1929 pela sua amplitude e imprevisível duração. As instituições internacionais, nomeadamente o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, foram incapazes de antecipar e conter. Certo, porém, é tratar-se de uma crise global, afectando e infectando todas as economias do mundo e que parece pôr definitivamente em causa o chamado Consenso de Washington, desacreditando os pilares da ideologia do liberalismo financeiro, ou seja a capacidade de auto-regulação dos mercados, a desregulação e a liberalização financeiras. As consequências políticas de uma crise económica e social prolongada, à qual se somam, em certos casos, profundas divisões nacionais e religiosas que minam a coesão do Estado parecem cenários verosímeis.

Quarta reflexão: tendências mundiais – o mundo em 2025

Fazendo agora um exercício de prospectiva e apesar do carácter contingente e incerto de quaisquer cenários futuros, considerados no seu conjunto, os elementos que acabei de enumerar permitem identificar algumas tendências e vectores que provavelmente marcarão o mundo num arco temporal de 10 a 15 anos.
Embora o risco seja o da futurologia, vale a pena um esforço de sistematização das hipotéticas tendências principais porque só assim nos podemos preparar hoje para responder aos desafios de amanhã.
Segundo o recente relatório publicado pelo National Intelligence Council sobre “As tendências globais em 2025: um mundo transformado”, entre os factores relativamente certos ou prováveis, susceptíveis de determinar os contornos do sistema internacional daqui a 10-15 anos, podemos enumerar:

– a emergência de um sistema multipolar, marcado simultaneamente pela crescente afirmação do eixo do Pacífico (China, Índia, Coreia, Japão, EUA) e pelo aumento do poder relativo das redes de actores não estatais (multinacionais, ONGs, organizações religiosas etc);
– a manutenção dos EUA como potência mundial, embora tornando-se menos dominante;
– uma significativa deslocação da riqueza relativa e do poder económico do Ocidente para o Leste;
– o acesso a recursos escassos (energia, alimentos e água) poderá tornar-se-á num factor crítico devido à pressão acrescida do desenvolvimento económico (aliado a um aumento demográfico mundial de cerca de 1.2 mil milhões de pessoas em 2025);
– o aumento do potencial de conflitos devido a mudanças rápidas no “Grande Médio Oriente” e à difusão de capacidades letais;
– desestabilização e falência de Estados com população marcadamente jovem (Afeganistão, Paquistão, Iémen, Nigéria), se as condições do emprego não mudarem radicalmente;
– persistência do terrorismo;

Entre as condicionantes chave, mas sobre as quais domina a incerteza, o referido Relatório destaca:

– o futuro do multilateralismo e o seu papel na resolução dos problemas globais: reforço ou enfraquecimento ?
– A Europa e o Japão perante os desafios económicos, sociais e demográficos: sucesso ou declínio ?
– Grande Médio Oriente: estabilização do Iraque e resolução do conflito Israelo-Palestiniano ?
– China e Rússia – no caminho da democratização ?
– Armamentos e armas nucleares: proliferação ou controlo ? Papel do Irão na militarização regional.
– Mudança de paradigma energético: do petróleo e gás às energias limpas e renováveis;
– Alterações climáticas : impacto, controlo e catástrofes;
– Mercados globais e comércio internacional: regressão e regresso do mercantilismo ?

Ao relembrar este quadro, o meu propósito é duplo: por um lado, chamar a atenção para o facto de vivermos num mundo em mutação e também em transição. Por outro, sublinhar que a incerteza não pode ser um álibi para a inacção nem desculpa para se não antecipar os desafios do futuro.
O sistema internacional daqui a 10/15 anos poderá ser bastante diferente daquele que conhecemos hoje e que herdámos do pós-guerra. Nem podia deixar de ser porque as suas insuficiências e lacunas são hoje já bem tangíveis em inúmeros aspectos e vertentes. Mas, não é ainda clara qual a ordem que resultará das transformações em curso, que poderão ser aceleradas pela actual gravíssima crise económica e financeira.
A tendência para um sistema multipolar parece, porém, desenhar-se com alguma nitidez, com os riscos de instabilidade, concorrência e rivalidades que lhe são inerentes, quer seja no plano comercial, dos investimentos, das inovações tecnológicas, no domínio dos recursos naturais ou até da expansão territorial e militar. Temos de estar preparados para enfrentar estes riscos e prevenir os seus efeitos nefastos.
Em termos económicos, a deslocação do centro de gravidade da produção mundial da riqueza parece consumar-se do Ocidente para a Ásia. Mas, por mim, tenho claro que o nosso modelo de desenvolvimento ainda não está esgotado e que as vantagens comparativas do chamado modelo social europeu constituem um trunfo e um acervo que nos dá um avanço inegável se o soubermos adaptar aos modernos desafios. Acredito também na larga vantagem que nos conferem a sólida prática do multilateralismo que pacientemente fomos acumulando ao longo dos últimos 60 anos e o legado de valores, princípios e direitos que moldam o nosso quotidiano e que nos levam a reclamar a igualdade de direitos e de oportunidades para todos, a democracia, o Estado de direito e a economia de mercado como preceitos basilares das nossas sociedades e, mais ainda, como, digamos, a ambição que ousamos ter para o mundo enquanto respaldo do sonho universal da paz perpétua…
Em termos de segurança colectiva, deixem-me também que me pronuncie pela absoluta necessidade de uma estratégia global que, não sendo um fim em si mesma, mas apenas um meio para realizar um conjunto de finalidades, está inequivocamente ancorada na Declaração Universal dos Direitos do Homem das Nações Unidas, ao abrigo da qual a responsabilidade de proteger, que constitui o âmago da soberania nacional, cabe aos Estados.

Quinta reflexão: a força e as fraquezas da democracia portuguesa, elementos para uma estratégia nacional

Perante a dinâmica de crise e a sua escalada, que têm dominado a política internacional, a definição da estratégia nacional tem de assentar em dois princípios fundamentais:

– O primeiro aconselha a reforçar a estabilidade, a solidez e a credibilidade do Estado e das suas instituições, a mobilizar os cidadãos para a acção, a fortalecer a coesão nacional, a consolidar as nossas alianças e vínculos tradicionais, também aumentando assim a nossa capacidade de intervenção internacional. Só assim se consegue assegurar o essencial, mantendo a capacidade de responder a situações de emergência, sem contudo abandonar ou contradizer o rumo fundamental, e, ao mesmo tempo, suscitar a confiança dos portugueses. À actual crise deve responder-se como se responde quando um país está em guerra: mobilizando, unindo, falando verdade, cooperando e agindo.
– O segundo princípio aconselha a aproveitar a instabilidade própria da crise para definir e aplicar uma agenda das mudanças necessárias e no sentido certo. Ao proceder-se assim, é como se se aproveitasse uma doença para mudar hábitos e rotinas (alterar hábitos alimentares perniciosos, deixar de fumar, fazer exercício físico).

Em tudo isto, fundamental continua a ser a força da democracia portuguesa, a nossa determinação para encontrar nos desafios externos e internos razões adicionais para continuar a construir solidariamente o nosso destino colectivo. A confiança na vontade nacional e nas instituições que representam a soberania portuguesa é penhor da nossa confiança na capacidade para definir a melhor estratégia para ultrapassar esta crise.
Tendo em conta a nossa experiência recente, os objectivos que alcançámos e que enumerei anteriormente, considero que os desafios que estão por vencer são os seguintes:

– A democracia portuguesa, embora consolidada, tem uma história ainda jovem e sobre ela paira a sombra de uma tradição anti-democrática não inteiramente desvanecida;

– Por outro lado, há sinais crescentes de afastamento entre os cidadãos e as instituições, entre os representantes e os representados, que se expressam nomeadamente em níveis elevados de abstenção eleitoral, na falta de renovação das elites dirigentes, na pouca atractividade da actividade política, no fechamento dos partidos políticos;

– À crise internacional soma-se a uma crise nacional persistente porque, apesar de correctamente diagnosticados, alguns dos nossos problemas de fundo arrastam-se há anos sem resolução, gerando uma ideia de impotência e de falta de alternativas, o que favorece a resignação e o fatalismo. Entre esses problemas, estão:

• Problema da governabilidade do país que, se nos últimos tempos tem estado oculto por força da existência de uma maioria absoluta poderá, nos próximos tempos, irromper de forma dramática;

• dificuldades constantes em reformar o Estado e a administração pública, os quais são muitas vezes dominados põe uma cultura de prepotência administrativa, de centralismo abusivo e de arbitrariedade burocrática,

• existência de uma cultura de dependência excessiva e parasitária em relação ao Estado, ao mesmo tempo que toda a gente diz mal dele,

• frequente prevalência ilegítima dos interesses sectoriais sobre o interesse geral, que só um programa político maioritariamente sufragado pode definir;

• insuficiência dos esforços de modernização nas instituições da sociedade civil (associações patronais e sindicais, ordens e associações profissionais, organizações culturais, etc.) e persistência de muitos reflexos atávicos, que denotam arcaísmos paralisadores e inadequados ao nosso tempo,

• apesar de ser uma sociedade aberta e de ter experimentado alguns progressos, a nossa sociedade civil continua pouco autónoma, pouco ousada, pouco criativa e pouco dinâmica,

• na economia, continua a ser necessário apostar num conjunto de actividades exportadoras de bens e serviços de qualidade, competitivos e com forte procura a nível mundial; em empresas assentes na inovação, na tecnologia, no empreendedorismo, na qualificação dos recursos humanos e no valor dos bens e serviços nacionais para que possam vencer a concorrência nos mercados interno e externo; numa política deliberada e activa para a captação de bons investimentos estrangeiros, tanto mais fundamentais para a modernização da economia e para o financiamento do défice externo quanto já entrámos numa fase de significativas restrições nos sistemas financeiros internacional e nacional; e numa política de diversificação de mercados de destino das exportações nacionais (exemplos, Angola, África do Sul, Brasil);

• no plano energético, do ambiente e das alterações climáticas, há desafios importantes a vencer, para aplicar um modelo de verdadeiro desenvolvimento sustentável.

• no plano social, a manutenção, e mesmo o aumento, das desigualdades sociais, da exclusão e da pobreza, são sintomas de subdesenvolvimento que causam sério dano à coesão social e dificultam a integração;

• a existência, há vários anos, de sectores fundamentais em crise e em instabilidade crescente (justiça, educação) afecta gravemente a imagem da democracia e desprestigiam o Estado, além de hipotecarem o futuro, gerando desconfiança (por exemplo, no que respeita ao investimento) e impedindo o desenvolvimento;

• persistência de dificuldades nas reformas das Forças Armadas, quando há muito se sabe o que é necessário e que, em matéria de defesa e de produção de segurança, há que atender ao triângulo virtuoso do interesse nacional, do compromisso internacional e das capacidade reais;

• Há algumas lacunas na concepção da segurança cooperativa, como conceito abrangente, que cada vez mais tem de englobar, não só a defesa que cabe às forças armadas, mas também as forças de segurança interna;

• A existência de um clima de desprestígio das instituições, de desconfiança nos seus titulares e de “salve-se quem puder”, fomentado por sinais crescentes de corrupção, impunidade (com a ideia de que a “classe política” é toda ela corrupta e de que há uma justiça para ricos e outra para pobres) e pela promiscuidade entre o mundo da política e dos negócios é uma gravíssima ameaça à democracia;

• Há também entre nós alguns sinais de enfraquecimento das convicções europeístas, acompanhando-se, aliás, um preocupante movimento geral na Europa;

Sexta reflexão: Preparar o futuro

Tendo presentes estes pontos fracos e fortes, é preciso continuarmos a agir com resolução. Os últimos anos ensinaram-nos que o nosso mais sério problema é que, apesar dos diagnósticos estarem feitos e as terapias indicadas, tem havido dificuldades em pô-las em prática com continuidade e consequência. Arranjamos sempre desculpas, alibis, fugas. Por isso, interrompemos, abrandamos, desviamos, recuamos, escolhendo o mais fácil e evitando o mais difícil.
Temos agora de ter consciência de que os nossos pontos fracos, num quadro de crise internacional, podem ser ainda agravados. Mas esta crise obriga também a certas mudanças, que de outra maneira seriam de concretização mais difícil. É preciso saber fazê-las nas condições que nos sejam mais favoráveis.
Para isso, precisamos de:

– Afrontar a questão da governabilidade do país no quadro de uma futura revisão constitucional, ponderando temas como os da moção de censura construtiva enquanto tentativa de encontrar possíveis mecanismos institucionais de garantia de estabilidade política que são da maior importância para a nossa democracia;

– ter capacidade para estabelecer compromissos políticos e sociais sobre questões estruturais de longo prazo, não os pondo em causa por cálculo, conveniência ou oportunidade, consoante se está no governo ou na oposição;

– ter coragem para rejeitar o facilitismo, o populismo e a demagogia, fazendo o que é preciso fazer sem temer a impopularidade imediata;

– preferir o profundo ao superficial, o estrutural ao conjuntural, o duradouro ao efémero, o consequente ao provisório;

– apresentar alternativas políticas reais, enriquecendo o debate, assumindo as divergências e propondo escolhas, em vez de ficarmos reféns de conflitos tácticos e artificiais;

– não diabolizar o Estado, que tem qualidades, nem divinizar a sociedade civil, que tem defeitos. Mas também não divinizar o Estado, que tem defeitos, nem diabolizar a sociedade civil, que tem qualidades;

– fomentar nos cidadãos e organizações uma cultura de responsabilidade, iniciativa e participação – informada, esclarecida e exigente – bem como dos princípios da ética republicana;

– aumentar a solidariedade, reforçando o sentimento de pertença e de partilha, e evitando que os excluídos pensem que são ainda mais excluídos na crise, enquanto só os ricos e os poderosos são protegidos;

– desenvolver uma cultura moderna de risco, conhecimento, inovação e reforma de métodos e de mentalidades;

– promover uma cultura de tolerância, prevenindo os factores de racismo, chauvinismo e agressividade que as crises têm tendência a gerar;

– ganhar consciência de que a maioria dos nossos problemas têm de ser equacionados e enfrentados em quadros supra-nacionais (sobretudo no quadro europeu), rejeitando uma atitude paroquial e provinciana.

– capacitarmo-nos de que, para além da definição de estratégias, importa a sua execução e que, num mundo marcado pela interdependência, importa que uma estratégia nacional associe estreitamente sem as confundir, política de defesa, política de segurança interna, política externa, diplomacia económica e política da cultura e da língua portuguesa.
Excelências

Uma estratégia não pode resumir-se a um catálogo de medidas e muito menos a um rol de piedosas intenções. Como disse no início e agora repito, para ser realista, a estratégia nacional tem de assentar numa visão do futuro e na definição de uma ambição para Portugal.
Foi o que procurei aqui delinear com as seis reflexões que fiz. Mas uma coisa gostaria de deixar bem clara: para podermos enfrentar os desafios presentes e todos os que o futuro por certo nos trará, teremos de mudar porque o status quo não é sustentável a prazo.
Tal como aquando do 25 de Abril, a democracia portuguesa fez a aposta estratégica na Europa, teremos agora de ousar novas apostas, portadoras de futuro. Chegou a altura de inverter os papéis e de nos interrogarmos não tanto sobre o que a Europa pode fazer por nós, mas sobre o que nós podemos fazer por ela. Temos de apostar no reforço da solidariedade na comunidade ocidental, incluindo um esforço colectivo para garantir a estabilidade nos espaços periféricos cruciais para a nossa segurança. Temos de apostar no reforço da nossa posição internacional, através de uma diplomacia activa assente no uso intensivo dos instrumentos do soft power – a este respeito, não resisto aliás a dar o recentíssimo exemplo da proposta portuguesa de acolher alguns prisioneiros de Guantanámo, porque me parece uma excelente ilustração do que quero dizer. Temos de apostar no reforço da nossa credibilidade externa, aumentando a nossa capacidade de gerar consensos e de transmitir uma visão universalista do mundo, de saber usar de sentido estratégico e do conhecimento profundo que temos das nossas áreas tradicionais de influência – penso especialmente na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e na Comunidade Ibero-Americana.

Excelências

A influência de um país na cena internacional não se mede só em função da dimensão do território, da população ou do PIB, mas também da sua atitude afirmativa, empreendedora, valorizante e cooperativa, da sua capacidade em acrescentar valor, em se afirmar como parceiro credível da comunidade internacional, empenhado em contribuir activamente para a resolução dos problemas e o desenvolvimento de políticas cooperativas e inovadoras.
Isto significa também que temos de mudar a imagem de Portugal e, mais do que isso, que temos de mudar Portugal. Precisamos de um sobressalto de patriotismo, de nos unirmos para definir e aplicar com sucesso uma estratégia nacional. Não será fácil, mas vale a pena tentar porque é maior a probabilidade de assim se conseguir um melhor resultado do que com a solução ou a saída que, se nada se fizer, acabará por se impor por força das circunstâncias. Por mim, tenho a certeza – se quisermos, conseguimos!

Muito obrigado

Nota à Imprensa – Conferências, dia 17 de Dezembro 2008

December 16, 2008

NOTA À IMPRENSA

O Dr. Jorge Sampaio fará a Conferência Inaugural dum Ciclo promovido pelo Instituto de Defesa Nacional (IDN) sob o título “Contributos para uma Estratégia Nacional”. Esta Conferência realizar-se-á amanhã, dia 17, pelas 14.30 horas, no Auditório General Câmara Pina daquele organismo (Calçada das Necessidades, nº 5).
Na sua qualidade de Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, o Dr. Sampaio participará, também nesta data, pelas 17.30 horas, numa Conferência no âmbito no Ano Europeu do Diálogo Intercultural. Este evento insere-se no Ciclo de Seminários Qualificantes organizado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) e que tem por objectivo aproximar e estimular a reflexão e o diálogo entre todos os seus colaboradores.
Este último evento realizar-se-á na Sala de Extracções da SCML (Edifício de S. Roque, Largo Trindade Coelho).
Para mais informações, contactar 91 777 6309 / 91 759 3269.

Address to the European Parliament

October 22, 2008

 

Jorge Sampaio


UN HIGH REPRESENTATIVE FOR
THE ALLIANCE OF CIVILIZATIONS

Address to the European Parliament

Strasbourg,
October, 22, 2008

 

Mr PÖTTERING, President of the European Parliament,
Mr Harald RØMER, Secretary General of the European Parliament,
Honorable Members of the European Parliament,
Excellencies,
Ladies and Gentlemen,

Senhor Presidente do Parlamento Europeu
Senhor Secretário-Geral
Senhores Parlamentares
Excelências
Minhas Senhoras e Senhores

Não quis deixar de fazer esta saudação inicial na minha língua materna, o português, mas todos compreenderão por certo que, na qualidade em que aqui hoje me encontro, recorra a outro código linguístico…

Let me express at the very outset my heartfelt thanks to Mr.Pöttering for his kind words of welcome. Let me also add that it is an honor and a great pleasure to address this prominent audience both on behalf of His Excellency the Secretary General of the United Nations and in my capacity as his High Representative for the Alliance of Civilizations.
The Secretary General was invited to address this parliamentary session but was unable to be here today with us. He has asked me to deliver the following message, and I quote:
THE SECRETARY-GENERAL

MESSAGE TO EUROPEAN PARLIAMENT SESSION
ON THE EUROPEAN YEAR OF INTERCULTURAL DIALOGUE (2008)
Strasbourg, 21 – 22 October 2008

“It is a great a pleasure to send greetings to all the distinguished participants in this important session of the European Parliament on intercultural dialogue.
Throughout its history, Europe has seen terrible outbreaks of armed conflict often rooted in prejudice and hatred. Yet the continent has also been fertile soil for some of the world’s most remarkable innovations, artistic creations and scientific progress. Europe’s tremendous diversity and its strategic geographic position, at the centre of old and new migration routes, have made it a significant venue for cross-cultural interaction and interfaith dialogue. In particular, its close relationship with its neighbors across the Mediterranean makes Europe an important bridge between civilizations.
Like many other regions of the world, Europe faces multiple challenges in promoting intercultural dialogue. Migration, economic uncertainty and political tensions are putting strains on relations between different cultural, ethnic and religious groups.
But it is precisely in your region, where constructive contacts over the centuries have allowed humanity to take major leaps forward, that opportunities for reconciliation and cooperation exist.
This special session today holds great promise. I urge you to make the most of this opportunity, and to pursue joint economic projects, educational exchanges, and other initiatives that will improve people’s lives and create a bulwark against intolerance, religious fundamentalism and extremism.
The United Nations will do its part to support and complement your efforts, both in and beyond Europe.
The Alliance of Civilizations is one of our main vehicles for this work. It aims to address the growing divisions between societies by reaffirming a paradigm of mutual respect between peoples. It also seeks to mobilize joint action for this purpose. Among the Alliance’s major initiatives are a Youth Solidarity Fund to promote dialogue, and a Global Expert Finder to provide a source of commentators who can shed light on potentially divisive issues.
“If I were to do it all over again, I would begin with culture.” These famous words, most often attributed to Jean Monnet, who worked so tirelessly for European unity, remain strikingly relevant today.
Cross-cultural tolerance, dialogue, respect and understanding must be pillars of the better world we are trying to build. It is very encouraging to know of your strong commitment to this quest.
For the sake of countless people living between the extremes and yearning for dignity and peace, let us work together so that intercultural dialogue can bear fruit. In that spirit, please accept my best wishes for the success of your discussions”.

Unquote.

Excellencies,

As a former MP I know that Parliament is and always will be the home of democracy. Its members have the sometimes ungrateful task of guaranteeing a sustainable view of the future for the people they represent.
As far as Europe is concerned, we all know how slow has been the evolution of the parliamentary institution, and how great the challenges are to enforce a specific European model of democracy.
I can only praise the work already carried out and its contribution to build a more participative, pluralist Europe that is closer to citizens, closer to all citizens. These are the results of your labour and therefore I wish to address a warm greeting to all the members of this assembly, the legitimate representatives of a community of nations committed to achieve an original and unique project, in which the last century placed so many hopes and which in this one faces so much expectation.

Members of Parliament,

I come today to speak to you of the Alliance of Civilizations, an issue that although it may seem remote and distant from our day to day life is in fact deeply embedded there. An academic dispute between scholars who predicted the end of history and the clash of civilizations, but that turned into a major hot social topic, a challenge to democracy and a core issue of international policy because of globalization, increased migrations and 9/11. An issue, finally, that the United Nations managed to put high on the global agenda.
What am I talking about?
I refer to the huge – ethnic, cultural and religious – diversity of our societies and of the increasing difficulties we experience in living together.
I speak of the worsening divides of all types, the erosion of social cohesion and the widening rifts between societies.
I speak, too, of a widespread malaise that has been expressed in increased tensions intra and inter-communities, mutual distrust, in polarized perceptions and world views, in intractable identity-based conflicts, and in the rise of extremism.
Furthermore, I speak of religion being employed as a tool by all and sundry, and used and abused for various purposes and effects.
I speak also of the disorientation of political powers, confronted with the deficiencies of a purely security-based and/or repressive approach, and the absence of suitable policies and instruments for proper governance of cultural diversity.
All this serves to underline what to me is irrefutable evidence: cultural diversity has become a major political issue challenging modern democracies, pluralism, citizenship and social cohesion as well as peace and stability among nations.
For me this is crystal clear and even if serious but circumstantial crises such as the current financial and economic turmoil take up all attentions, we cannot allow present emergencies to deflect us from handling the in-depth problems of today and guard against the catastrophes of tomorrow.

Members of Parliament,
Excellencies,

To put it harshly – to us, to the European Union, stripped down to its bare essentials, it means: how to integrate minorities, all minorities, but the Muslims of Europe in particular? How to develop our relationship with the Mediterranean? Where to draw the lines of the European project? How to enhance European foreign policy to project what we consider universal values to the world?
In my view, this is all about fundamental questions concerning values, beliefs, attitudes and behaviors. This is about democracy, rule of law, human rights and respect for cultural diversity; about justice, social cohesion and inclusive societies; about States, secularization and secularism or laicité; about the public sphere, private acts and religious revival. This is all about European identity and values. That’s it.
As time is obviously very short, I will not be able to discuss all these points, so I will focus on the issue of the Muslim minorities in Europe.
Why there is growing anxiety about the integration of Muslims in Europe ? Because it is a demographic issue ? Yes, of course!
Because of the integration issue? No doubt about that! In my view, the presence of Muslims in Europe is not a question of Islam and the West, but an acute problem of integration.

But, to my mind, there is another thing, there is an identity issue. Indeed, the arrival of immigrants in any society has an impact on the host country’s sense of self. But the point here is that, as someone has put it, “the dam separating Christian Europe from Muslim East has sprung a leak, altering Europe’s culture”.
Why, for instance, did past discussions on the preamble of the former European Constitution end in such vocal acrimony? Why does Turkey’s accession to the European Union trigger such passionate and combative debates? All these questions are inter-related and they all point to the so-called European values and identity.

Ladies and Gentlemen

In order to reinforce it, European identity should encompass individual allegiances and adopt cultural legacies. Europe as a place where we can live together as equals requires more and more inclusive citizenship and better governance of cultural diversities.
To cope with the integration of Muslims in our European societies we need new policies at all levels. We need European action, but also national governmental initiatives as well as local measures. We need democratic governance of cultural diversity. We need integrated perspectives and policies on education, youth, and integration of migrants.
In order to develop appropriate cultural policies we need to build cultural statistics and indicators to enlighten decision-makers and the decision making process and to monitor and assess the implementation of those policies. We need to develop democratic citizenship and participation.
We need education for human rights. Education for citizenship and respect for others. Education for intercultural understanding and dialogue. Education on media literacy. Education about religions and beliefs and both intra-and inter-religious dialogue. We need to learn about and to teach intercultural competences to our citizens.
We need to create urban strategies and policies for intercultural dialogue. We need youth policies based on equal opportunities. We need to engage civil society at large, youth, religious leaders and the media. But we need also to expand and develop the intercultural dialogue agenda in international relations and give it priority.

Mr. President,
Honorable Members of the European Parliament,
Excellencies,

How can we live together in our globalizing word, where clashes anywhere are clashes everywhere and where cultural and religious fault-lines divide our societies? This is the global challenge the Alliance of Civilizations is facing and which it has to address in concrete terms.
Turning this global challenge into “glocal” deliverables is therefore AoC’s main task. By “glocal” I mean that deliverables have to be extensively underpinned by a global approach, but have to be implemented at a local level.

This means that the Alliance relies greatly on the European Union to implement an agenda of good governance of cultural diversity in the European region, meaning by that not only the members of the European Union, but also its neighboring countries, particularly the Mediterranean ones.
This is why I am so happy that an Action Plan on cooperation between the European Union and the Alliance of Civilizations has been agreed and will provide a solid base for the pursuit of concrete objectives and the implementation of practical projects.
In this regard, let me stress how important and significant it will be if the European Year of Inter-cultural Dialogue could be expanded into a long term, sustainable framework for promoting good governance of intercultural diversity.
I am sure that it would have a terrific impact on boosting National Strategies for intercultural Dialogue comprising measure and programmes on education, media, migration and youth that I have asked countries to design and implement. This is a suggestion that I put forward last April and to which I would like to draw your attention, asking honourable Members of Parliament kindly to back it.
Another area where in which the Alliance is eager to collaborate is the Union for the Mediterranean in order to help improve and manage inter-cultural diversity and inter-cultural dialogue, including inter-faith issues, within and among European and Muslim societies and communities.

Excellencies,

To put it bluntly: the current international difficulties and the increasing anxiety we all feel in living together in mutual respect have encouraged the misguided view that cultures are set on an unavoidable collision course leading to a clash of civilizations.
We face increased polarizations that come up against a backdrop of growing tensions over a series of political issues and of growing cultural stereotypes. It goes without saying that political conflicts can only be solved through political negotiations. The long-term resolution of tensions between Muslim and Western societies, for example, cannot be achieved as long as some of the egregious sources of hostility are not successfully addressed.
But it is equally true that peace agreements rarely hold if they are not strongly backed by the communities involved. Many peace deals in the past have floundered because deep-seated suspicion and hostility remained, dividing people along cultural and religious lines.
Now the point is that all findings are unanimous and show a great divide in the way Westerns and Muslims view each other, with Westerners seen by Muslims as patronizing and domineering, and Muslims seen by Westerners as fanatical and intolerant. Moreover, socio-economic marginalization and discrimination generate disaffection and intolerance, and aggravate the chasm between Muslim and Western publics.

This so-called divide, opposing two fictional monolithic blocks, Islam and the West, fuels further stereotypes and polarization, and gives rise to extremism. But let me stress that the vast majority of peoples reject extremism in any society and support respect for religious and cultural diversity. Both Muslims and non-Muslims are concerned by the challenges of security and the threat of social polarization. Millions of Muslim families worry about losing their young to religious and political extremism.
In order to tackle this problem, new strategies to manage and promote inter-faith dialogue as part of cultural diversity, based on universal human rights, should be developed. In other words, creating the necessary conditions for sustainable peace requires efforts of a different kind, aimed at generating a mind shift among divided communities. This is my first concluding point.
My second point regards the need to give political priority to the development of democratic governance of cultural diversity.
In the European Union this implies creating a collective identity between its citizens – regardless of their origins and their ethnicities, languages, philosophical beliefs, political and religious affiliations – to share values, attitudes and projects, and make room for a common future to build on together. This is why cultural diversity should go hand in hand with protection of human rights and fundamental freedoms, equal opportunities for all, economic solidarity and social cohesion.

Excellencies,

These issues will not be sorted out in the short term and long term efforts are needed. Indeed, the temptation to give up is likely to be with us all the time, but we must never resign ourselves because after all small changes in circumstances can produce big shifts in behavior. And this is exactly what we need to generate the will to live together in mutual respect and appreciation of our ethnic, linguistic, cultural and religious differences.
The urgency of the task cannot be underestimated. But I am sure that with your work and your commitment, we will manage to live together in integrated communities.

Many thanks
——-
Audio File [EP]

Visita do Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações ao Irão

October 15, 2008

NOTA À IMPRENSA

Teerão, 14 de Outubro de 2008

Visita do Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações ao Irão (actualização)

O programa da visita do Alto Representante ao Irão incluiu vários encontros oficiais com as autoridades nacionais e contactos com a sociedade civil, para além da sua participação numa conferência sobre o papel da religião no mundo moderno, organizada pelo Clube de Madrid, a Fundação para o Diálogo das Civilizações e o Centro de Oslo para a Paz e os Direitos Humanos.
Ontem, 14 de Outubro, o Alto Representante participou num debate com estudantes da Universidade Islâmica Azad, uma mega rede de universidades privadas com mais de 1 milhão e seiscentos mil estudantes, representada em várias cidades do Irão, mas também no estrangeiro. Recordando a sua própria experiência e o seu activo envolvimento cívico nas lutas estudantis, o Dr. Sampaio abordou temas como a democracia e os direitos humanos, para além de ter explicado os objectivos e finalidades da iniciativa da Aliança das Civilizações.

Ontem ainda, o Dr. Sampaio foi recebido pelo Guia Supremo, Ayatollah Ali Khamenei. Neste encontro participaram também, entre outros, Romano Prodi, Kjell Magne Bondevick, ex-Primeiro Ministro Norueguês, o ex-Primeiro Ministro do Sudão, o Bispo de Washington, Re. Chane, e o ex-President Khatami. Os participantes procederam a uma troca de pontos de vista com o Líder Supremo e abordaram alguns temas ligados à actualidade, tendo sublinhado o papel do diálogo como instrumento de resolução dos problemas e para o aprofundamento das relações entre povos e comunidades.
O Dr. Sampaio manteve ainda um demorado encontro com o Ministro dos Negócios Estrangeiros M. Mottaki, com quem teve a oportunidade de trocar pontos de vista sobre a Aliança das Civilizações, sobre o seu contributo para ultrapassar as clivagens de ordem cultural e religiosa que minam o bom entendimento internacional e sobre o papel do Irão nesta iniciativa.

President Sampaio pays a visit to Iran

October 9, 2008

PRESS RELEASE

Lisbon, October, 9, 2008
President Sampaio pays a visit to Iran

From 13 to 16 October, UN High Representative for the Alliance of Civilizations, President Jorge Sampaio, will pay a visit to Tehran, where he will attend and address a Conference organized by former President Khatami on “Religion in the modern world”. Several other meetings are also planned with local authorities, members of the civil society and media to discuss a wide range of issues related to the Alliance of Civilizations’ UN initiative.
On the 14 October, President Sampaio will participate in a debate at the Islamic Azad University, a mega university with 1.300.000 million undergraduate students. He will focus on the ongoing works of the Alliance and the challenges.
About this visit President Sampaio said: “Iran has an important role to play within the Alliance of Civilizations because of its unique cultural and religious makeup; on the other hand, the Alliance can help implementing a national agenda for addressing a number of cross-cutting issues, ranging from education to migration, media and youth, as well as smoothly introducing a new overall approach to social policies based on respect for diversity”.

The Alliance of Civilizations (AoC) was established in 2005, at the initiative of the Governments of Spain and Turkey, under the auspices of the United Nations. It aims to improve understanding and cooperative relations among States and peoples across cultures and religions and, in the process, to help counter the forces that fuel polarization and extremism.
In April 2007, Secretary-General Ban Ki-moon appointed Jorge Sampaio, former President of Portugal, as High Representative for the Alliance. This marked the implementation phase of the Alliance of Civilizations, with the development of an action-oriented implementation plan focusing on initiatives and projects in the areas of youth, media, education and migration.
The Alliance’s focus on concrete initiatives was reinforced and consolidated at the First Alliance of Civilizations Forum, which was hosted by the Government of Spain on 15-16 January 2008.

Iran is a member of the Group of Friends of the Alliance and former President Kathami was member of the High Level Group who drafted the Report on the Alliance.
This conference on “Religion in the Modern World” is the closing session of a cycle of three meetings inaugurated one year ago. The Conference will address the issue of how religious and political leaders can cooperate to promote peace by protecting human rights, moral and religious values, diversity and peaceful coexistence in pluralistic, modern societies. Kofi Annan, Bondevick (former Prime Minister of Norway), Romano Prodi, Federico Mayor are among the participants as well as several scholars and religious leaders.

For additional information see: www.unaoc.org
For more information about the program, please contact Helena Barroco,
(tp.obactennull@ocorrabh; cell number + 351 91 777 63 09)
Speeches and any updated news will be posted on the website: http://jorgesampaio.pt

Memorandum of understanding between the Council of Europe and the Alliance of Civilizations

October 1, 2008


Jorge Sampaio, United Nations High Representative for the Alliance of Civilizations and Terry Davis, Secretary General of the Council of Europe signing the memorandum of understanding between the Council of Europe and the Alliance
Parliamentary Assembly Session September 2008, Strasbourg